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Pode faltar insulina para diabéticos do mundo inteiro?

Pesquisa afirma que milh√Ķes de pessoas diab√©ticas precisar√£o de insulina at√© 2030. Mas cerca de metade delas n√£o conseguir√° acesso ao medicamento

Por Welinton Barros em 03/12/2018 às 20:38:09
Foto: Getty Images

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O fen√īmeno tem sido chamado de flagelo da vida urbana: um estilo de vida n√£o saud√°vel e obesidade levaram a um ressurgimento da diabetes de tipo 2, que ocorre quando o corpo n√£o consegue produzir insulina suficiente para regular os n√≠veis de a√ß√ļcar no sangue.

Agora os cientistas afirmam que milh√Ķes de pessoas ao redor do mundo que t√™m diabetes podem n√£o conseguir acesso à insulina ao longo da pr√≥xima d√©cada - e, talvez, por ainda mais tempo.

Cerca de 400 milh√Ķes de pessoas com entre 20 e 79 anos vivem com a diabetes de tipo 2, que √© a forma mais comum da doen√ßa. Mais da metade delas na China, na √ćndia e nos Estados Unidos. At√© 2030, acredita-se que os n√ļmeros ultrapassem 500 milh√Ķes. A outra forma da diabetes √© a de tipo 1, na qual o corpo ataca as c√©lulas do p√Ęncreas que produzem insulina.

Um novo estudo publicado no peri√≥dico cient√≠fico Lancet Diabetes and Endocrinology afirma que aproximadamente 80 milh√Ķes de pessoas com diabetes v√£o precisar de insulina at√© 2030. Mas cerca de metade delas - possivelmente, a maioria na √Āsia e na √Āfrica - n√£o conseguir√°. Atualmente, uma em cada duas pessoas com diabetes de tipo 2 n√£o t√™m acesso à insulina que precisam.

"O acesso (à insulina) √© definido como a combina√ß√£o da disponibilidade do produto e se ele √© acess√≠vel", afirmou o m√©dico Sanjay Basu, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, que coordenou a pesquisa. "Al√©m da quest√£o dos pre√ßos, tamb√©m deve existir uma cadeia de abastecimento que consiga distribuir de forma segura uma droga refrigerada e tudo aquilo que a acompanha - como agulhas esterelizadas e seringas".

Por que a insulina, um medicamento que já existe há 97 anos e que já foi considerada uma das drogas revolucionárias do século 20, continua a ser muito cara ao longo dos anos?

Uma raz√£o, dizem os cientistas, √© que tr√™s empresas multinacionais (Novo Nordisk, Eli Lilly and Company, Sanofi) controlam 96% do volume de insulina vendido no mundo e 99% do valor estimado de vendas, de US$ 21 bilh√Ķes de d√≥lares.

Controle global

Apesar de mais de 90 países entre 132 não aplicarem tarifas para insulina, a droga continua a ser muito cara para muitas pessoas.

At√© nos Estados Unidos, onde mais de 20 milh√Ķes de pessoas foram diagnosticadas com diabetes, despesas pessoais com insulina aumentaram 89% entre 2000 e 2010. Inclusive entre adultos que t√™m plano de sa√ļde. O pre√ßo do frasco da droga subiu de US$ 40 para US$ 130 - cada frasco costuma durar por algumas semanas.

Tamb√©m h√° considera√ß√Ķes sobre a disponibilidade da droga. 

Algumas pessoas com diabetes de tipo 2 podem controlar o n√≠vel de a√ß√ļcar no sangue com exerc√≠cio e dieta

O controle global do mercado de insulina, de acordo com David Henri Beran, dos Hospitais Universit√°rios de Genebra e da Universidade de Genebra, significa que os pa√≠ses t√™m poucas op√ß√Ķes de fornecedores. "Isso fez com que as pessoas tivessem que mudar o tipo de insulina que tomavam porque as empresas retiraram os produtos do mercado".

H√° diferentes tipos de insulina. E os m√©dicos prescrevem o tipo mais ben√©fico para cada paciente, dependendo de como respondem à droga, o tipo de vida que levam, a idade, as metas de a√ß√ļcar no sangue e o n√ļmero de inje√ß√Ķes a serem tomadas por dia.

Diversos pa√≠ses de renda baixa e m√©dia est√£o particularmente vulner√°veis a quebra de estoque. Um estudo sobre a disponibilidade de insulina descobriu que os estoques estavam baixos em seis pa√≠ses - Brasil, Bangladesh, Malau√≠, Nepal, Paquist√£o e Sri Lanka. Gest√£o prec√°ria e distribui√ß√£o insuficiente podem prejudicar o quadro - em Mo√ßambique, por exemplo, 77% do estoque total de insulina do pa√≠s fica na capital, provocando falta do medicamento em outras regi√Ķes.


"Em todo o mundo, problemas como a disponibilidade do produto e se ele √© acess√≠vel amea√ßam a vida e desafiam o direito à sa√ļde", falou Beran.

Então, por que uma droga que foi descoberta há tanto tempo por cientistas da Universidade Toronto ainda não está disponível como um genérico de baixo custo? (Os cientistas venderam a patente para a universidade por US$ 1). Drogas de alta demanda costumam se tornar mais acessíveis depois que suas patentes expiram, graças a competidores baratos. Mas isso não ocorreu nesse caso.

Uma raz√£o, segundo os cientistas Jeremy A Greene e Kevin Riggs, √© que a insulina √© mais complexa e dif√≠cil de copiar. E as fabricantes de medicamentos gen√©ricos consideraram que "n√£o vale a pena". Insulina biosimilar, que √© similar à insulina, tamb√©m est√£o dispon√≠veis no mercado, com pre√ßos mais competitivos, mas fica aqu√©m de uma vers√£o gen√©rica.

Cientistas dizem que a insulina deveria ser inclu√≠da em pacotes universais de cobertura de sa√ļde e que doadores globais deveriam alocar parte dos seus fundos em inova√ß√£o na presta√ß√£o de cuidados de sa√ļde e para a pr√≥pria droga.

Claramente, sistemas de sa√ļde fracos, acesso prec√°rio a unidades de sa√ļde, cuidados de sa√ļde com o diab√©tico e o pre√ßo est√£o impedindo o acesso à insulina.

"Poucas coisas precisam ocorrer, incluindo o preço e a infraestrutura de distribuição", explicou Basu. Até lá, a injeção de insulina não deve ficar mais acessível.

Fonte: BBC

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